FLORBELA ESPANCA

 

DIÁRIO

DO

ÚLTIMO ANO

 

 

[Este diário, o único que Florbela escreveu, abrange o seu último ano de vida. Florbela suicidou-se a 8 de Dezembro de 1930, seis dias depois da última anotação no diário. 0 manuscrito encontra-se no «Grupo Amigos de Vila Viçosa», tendo sido publicado, pela primeira vez, depois de passados 50 anos sobre a sua morte, por questões de partilhas dos direitos autorais entre os seus herdeiros.]

JANEIRO 1930

11 - Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões impressões ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.

Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.

Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciéncia nítida dos minutos que passam e dos que se vão seguir. Como compreender a amargura desta amargura? Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas? Deus malicioso e frívolo que tão lindos mantos teces sobre os ombros das mulheres que vivem? Para mim és um fantoche, ora amável ora rabugento, de que eu conheço todos os fios, de quem eu sei de cor todas as contorções. «Attendre sans espérer» poderia ser a minha divisa, a divisa do meu tédio que ainda se dá ao prazer de fazer frases.

Não tenho nenhum intuito especial ao escrever estas linhas, não viso nenhum objectivo, não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, cm silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me.

12 - Viver não é parar: é continuamente renascer. As cinzas não aquecem; as águas estagnadas cheiram mal. Bela! Bela! não vale recordar o passado! 0 que tu foste, só tu o sabes: uma corajosa rapariga, sempre sincera para consigo mesma.

E consola-te, que esse pouco já é alguma coisa. Lembra-te que detestas os truques e os prestidigitadores. Não há na tua vida um só acto covarde, pois não? Então que mais queres, num mundo cm que toda a gente o é... mais ou menos? Honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, recta sem princípios e sempre viva, exaltantemente viva, miraculosamente viva, a palpitar de seiva quente como as flores selvagens da tua bárbara charneca!

13 - Os olhos do meu cão enternecem-me. Em que rosto humano, num outro mundo, vi eu já estes olhos de veludo doirado, de cantos ligeiramente macerados, com este mesmo olhar pueril e grave, entre interrogativo e ansioso?

14 - A minha modesta «chaise» faz-me lembrar - «excusez du peu ... » - o Estoril cm Julho: azul do mar, pássaros esquisitos todos asas, gerânios vermelhos cm grandes umbelas floridas. Passo nela o melhor do meu tempo. Acendo um cigarro... e o fumo, dum cinzento-azulado, eleva-se, quase a direito, até ao tecto, todo pintalgado duma bizarra folhagem roxa, e de exóticas rosas cm dois tons de alaranjado, flores de papel inventadas por crianças para divertir bonecas. E a minha «rêverie» eleva-se com o fumo, adelgaça-se, espraia-se, espiritualiza-se. E o meu olhar acaricia, de passagem, o vulto do meu irmão: o meu amigo morto; demora-se, encantado, nas flores das minhas jarras, agora: andorinhas todas brancas, lírios roxos feitos de finos crepes «georgette», camélias vestidas de duras sedas pálidas. A chuva, lá fora, trauteia baixinho a sua clara e doce cantiga de Inverno, a sua eterna melodia simples que embala e apazigua. Sinto-me só. Quantas coisas lindas e tristes eu diria agora a Alguém que não existe!

15 - Como me lembra hoje o jardim da Faculdade! A minha recordação veste-o do roxo de todas as suas violetas,nesta evocação dum passado há tanto perdido! Maria Albertina, Tarroso, Regado, Camélier, Fontes, tantas, tantas sombras! Tantos mortos já! Jardim por onde ecoaram tantos gritos, tantos risos, tantas «blagues», todo o viço e o frémito das nossas irrequietas mocidades, por onde vogaram, confiantes e exaltados, todos os sonhos das nossas almas que ainda acreditavam na glória, na riqueza, na vida e cm maravilhosos destinos de lenda! Não gostaria de o tornar a ver; já não é o meu jardim, já não é o nosso jardim; as violetas já não são as nossas violetas, e aquela árvore grande que parecia debruçar-se a ouvir-nos, meus amigos vivos, meus amigos mortos, já decerto nos não conheceria...

21 - É um encanto agora, quase todos os dias renovado, o meu passeio pela Boavista. Como as árvores se enfeitam, espreitando a Primavera! Polvilham-se de oiro as mimosas, ao crepúsculo riem, num riso diabólico, as peónias, vestem as magnólias os seus vestidos de baile: brancos, rosados, cor de lilás... saias compridas quase a roçar o chão. Para aquela, pequenina, toda empertigada, em bicos de pés, no seu tapete de veludo, é talvez, este Inverno, o seu vestido de baile. Tão nova ainda! Uma rapariguinha de quinze anos. E que nome terá aquela senhora tão alta, toda de roxo, que me diz sempre adeus, quando passo, cm lindos gestos comovidos? E a outra, mais adiante, de lenço cor-de-rosa, amarrado à cabeça airosa, como uma alentejana? Eu que tenho esgotado todas as sensações artísticas, sentimentais, intelectuais, todas as emoções que a minha poderosa imaginação de criaturinha fantástica e estranha tem sabido bordar no tecido incolor da minha vida medíocre, não esgotei ainda, graças aos deuses, o arrepio de prazer, o estremecimento de entusiasmo, este «élan» quase divino, para tudo o que é belo, grande e puro: flor a abrir ou tinta de crepúsculo, raminho de árvore, ou gota de chuva, cores, linhas, perfumes, asas, todas as belas coisas que me consolam do resto. Serei eu apenas uma panteísta?

22 - Faço às vezes o gesto de quem segura um filho ao colo. Um filho, um filho de carne e osso, nao me interessaria talvez, agora... mas sorrio a este que é apenas amor nos meus braços.

23 - Endiabrada Bela! Estranha abelha que dos mais doces cálices só sabes extrair fel! «Para que quer esta criatura a inteligência, se não há meio de ser feliz?», dizia, dantes, meu pai, indignado. Ó ingénuo pai de 60 anos, quando é que tu viste servir a inteligência para tornar feliz alguém? Quando, ó ingénuo pai de 60 anos?... Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria cm volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate cm vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol ou reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no alto, ó ingénuo pai de 60 anos!

24 - 0 «Diário» de Maria Bashkirtseff é qualquer coisa de profundamente triste, de tragicamente humano. Só não compreendo naquela grande alma o medo da morte. 0 espectro da morte, a ideia da morte, apavora-a, espanta-a, indigna-a. É a sua única fraqueza. <<Il faudra donc mourir, misérable.» «Mourir? J'en ai très peur... Et je ne veux pas.» «Je veux vivre, moi, quand même et malgré tout ... » «Mon corps pleure et crie mais quelque chose qui est au-dessus de moi, se réjouit de vivre, quand même ... » Mas que imensa alma! Queria o amor, queria a glória, o poder, a riqueza, queria a felicidade, queria tudo. E morreu com pouco mais de vinte anos, gritando até ao fim que não queria morrer. Como não compreendeu ela que o único remate possivel à cúpula do seu maravilhoso palácio de quimeras, de ambições, de amor, de glória, poderia apenas ser realizado por essas linhas serenas, puríssimas, indecifráveis, que só a morte sabe esculpir? Os seus vinte anos não chegaram a compreender o alto e supremo símbolo das mãos que se cruzam, vazias dessa maré de sonhos que a vida, em amargo fluxo e refluxo, leva e traz constantemente. Princesinha exilada, porque não soubeste tu murmurar, encolhendo os ombros, o teu doce e sereno «nitchevo» de eslava?...

 

FEVEREIRO

3 - Chuva, vento, dores, tristeza... e sempre a Florbela, a Florbela, a Florbela!! Gostaria de endoidecer: Carlos Magno ou Semíramis, perseguidora ou perseguida, a chorar ou a rir, Eu seria outra, outra, outra! Não saberia sequer que os meus sonhos eram sonhos: o mundo estaria todo povoado de verdades. Os meus exércitos seriam meus, as minhas pedras preciosas seriam minhas; cóleras, pavores, lágrimas, gargalhadas, tudo isso seria realmente meu. E uma gota de água seria um astro, uma espiguinha de erva, uma seara, e um ramo de árvore, uma floresta. Ser doido é a única forma de possuir e a maneira de ser alguma coisa de firme neste mundo.

4 - Ó Bela imbecil, trouxa, como tu dizias, irmão querido. Trouxa... trouxa de farrapos, miseravelmente esfarrapados. Dentro, há talvez oiro e pedrarias, o vestido de Cendrillon, a coroa de rosas de Titânia, a esmeralda de Nero, a lâmpada de Aladim, a taça do rei de Thule... Quem sabe, se ainda ninguém a desatou?...

6 - A minha vida! Que «gâchis! » Se eu nem mesmo sei o que quero!

16 - Que personagem irritante o deste romance idiota «La ville du Sourire»! «Je me demande vingt fois, un soir, si je me coucherai à neuf heures ou si je courrai au dancing et je balance encore, à onze heures, entre un pyjarna posé sur le lit et un smoking posé sur la chaise ... » E gaba-se este pastel de que as mulheres o perseguiam!... Um homem sem vontade, sem energia, sem coragem, nunca pode ser verdadeiramente amado.

Ah, ser homem, e um belo impossível trancar-me um caminho por onde eu quisesse passar!

19 - Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que importa o desalento da vida se há a morte? Com tantas riquezas porque sentir-me pobre? E os meus versos e a minha alma, e os meus sonhos, e os montes e as rosas e a canção dos sapos nas ervas húmidas e a minha charneca alentejana e os olivais vestidos de «Gata Borralheira» e o assombro dos crepúsculos e o murmúrio das no¡tes... então isto não é nada? Napoleão de saias, que impérios desejas? Que mundos queres conquistar? Estás, decididamente, atacada de delírio de grandezas!...

22 - 0 olhar dum bicho comove-me mais profundamente que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar e não pode, princesa encantada por qualquer fada má. Num grande esforço de compreensão, debruço-me, mergulho os meus olhos nos olhos do meu cão: tu que queres? E os olhos respondem-me e eu não entendo... Ah, ter quatro patas e compreender a súplica humilde, a angustiosa ansiedade daquele olhar! Afinal... de que tendes vós orgulho, ó gentes?...

23 - A vida tem a incoerência dum sonho. E quem sabe se realmente estaremos a dormir e a sonhar e acabaremos por despertar um dia? Será a esse despertar que os católicos chamam Deus?

28 - Estou tão magrita! A lâmina vai corroendo a bainha, a pouco e pouco, mas implacavelmente, com segurança. Devo ter por alma um diamante ou uma labareda e sinto nela a beleza inquietante e misteriosa das obras incompletas ou mutiladas.

 

MARÇO

13 - 0 Luís tem no íntimo, embora o não confesse, um grande orgulho por não ser capaz de amar doidamente uma mulher. Como é que, sendo ele tão inteligente, não compreende esta verdade tão simples: que aquele que não tem nada para dar é que é pobre? Assim, nas suas aventuras sentimentais, dá, em troca de pedras preciosas, dinheiro falso e... como cada um dá o que tem, elas dão sempre pedras preciosas e ele continua a dar dinheiro falso. E, quando chegar a morte, terá ignorado dois dos maiores prazeres da vida: o prazer de possuir pedras preciosas e o prazer de as dar.

16 - Imagino-me, em certos momentos, uma princesinha, sobre um terraço sentada num tapete. Em volta... tanta coisa! Bichos, flores, bonecos... brinquedos. Às vezes a princesinha aborrece-se de brincar e fica, horas e horas, esquecida, a cismar num outro mundo onde houvesse brinquedos maiores, mais belos e mais sólidos.

 

ABRIL

20 - Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face... E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme, e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver... para viver?

28 - Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem para nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que se inclina e diz que sim a todos os ventos.

 

MAIO

2 - «La Monnale de Singe», de Delarne-Mardrus, encantou-me, positivamente; sem ser, de maneira nenhuma, uma obra-prima é um livro adorável. À parte a sua estrutura um pouco frágil, os seus exageros, o seu tom um pouco forçado de demonstração, é realmente qualquer coisa de bom. A sua «petite fille toute en or», longínqua como um ídolo, é um magnífico pretexto para magníficas páginas cheias de coração e de graça. «La jalousie et la haine sont des formes de I'hommage. C'est un encens amer, mais le plus précieux des encens, celui que les médiocres ne connaitront jamais.» Como é verdade! Este livro tem para mim o valor de me ter debruçado sobre ele como se me tivesse debruçado sobre a minha alma de rapariga. Lembro-me dela ter sido, dantes, um pouco, a alma corajosa e bravia, terna e inquieta duma «petite fille toute en or». E, também a mim, foi sempre em «monnaie de singe» que a esmola da ternura me foi dada...

 

JULHO

16 - Até hoje, todas as minhas cartas de amor não são mais que a realização da minha necessidade de fazer frases. Se o «Prince Charmant» vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade!

 

AGOSTO

2 - Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada... Porquê?

 

SETEMBRO

1 - A águia, será uma águia a valer ou simplesmente um milhafre?

6 - Tenho pela mentira um horror quase físico. Sinto-a à distáncia e agora... neste mesmo momento... sinto-a vaguear, asquerosa e suja, em volta da minha alma que vibra no orgulho de ser pura. Se os outros me não conhecem, eu conheço-me, e tenho orgulho, um incomensurável orgulho em mim!

 

OUTUBRO

8 - Era simplesmente um milhafre... Guardar-me intacta, como um cristal transparente, para quê? Mas não imitemos Jeremias... só na alma é que a lama se não apaga; aquela com que nos salpicam, sai com água limpa.

 

NOVEMBRO

15 - Não, não e não!

20 - A morte definitiva ou a morte transfiguradora? Mas que importa o que está para além?

«Seja o que for, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida!»

24 - Há uma serenidade consciente da sua força na linha firme daquele perfil. As mãos têm raça e nobreza; o sorriso, ironia e bondade; os olhos... não se examinam: deslumbram. Deve ter vivido dez vidas numa só vida. Há sonhos mortos, como violetas esmagadas, na pele fina e macerada das pálpebras. Que rastos deixarão na minha vida aqueles passos, silenciosos e seguros, que sabem o caminho, todos os caminhos da terra?

29 - «La tendresse humaine ne peut s'exprimer que par un seul geste: celui d'ouvrir et de refermer les bras.»

 

DEZEMBRO

2 - E não haver gestos novos nem palavras novas!

 

 

 

 

 

 

 

 

In, Florbela Espanca, Cartas e Diário, organização introdução e notas de Rui Guedes, Venda Nova: Bertrand 1995, p.231-244